A Ditadura Militar e os Professores Expurgados da Faculdade de Arquitetura da UFRGS

Data: 22/10/2018
Fonte: MANSAN, Jaime Valim. Os expurgos na UFRGS: afastamentos sumários de professores no contexto da ditadura civil-militar (1964-1969). 2009.

Durante a ditadura militar (1964-1985) as maiores atrocidades foram cometidas principalmente contra estudantes, professores, intelectuais e engajados políticos. Tanto em 1964 quanto em 1969 foram promovidas amplas ações repressivas, que atingiram inclusive a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com a criação da CEIS/UFRGS (Comissão Especial de Investigação Sumária da UFRGS) e ASI/UFRGS (Assessoria de Segurança e Informações da UFRGS) por ordens do Ministro da Educação e Cultura Flávio Suplicy de Lacerda.

O resultado foi o expurgo de dezoito professores da universidade, afastados em setembro de 1964, sendo dezesseis que lecionavam em Porto Alegre e dois em Pelotas. Em 1969, pelo menos vinte e três professores foram expurgados da UFRGS, principalmente em função das indicações da CISMEC (Comissão de Investigação Sumária do Ministério da Educação e Cultura).

Estas informações fazem parte da dissertação de Mestrado “Os Expurgos na UFRGS: Afastamentos Sumários de Professores no Contexto da Ditadura Civil Militar (1964-1969) de autoria de Jaime Valim Mansan, apresentada em 2009, no Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Confira a seguir alguns trechos da pesquisa que traz informações históricas sobre a trajetória acadêmica e a perseguição política-ideológica aos maiores nomes da arquitetura e urbanismo no Estado:


O GRUPO DA ARQUITETURA
Segundo a pesquisa de Mansan, na UFRGS, em termos quantitativos, a unidade de ensino mais atingida em 1964 foi a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. De lá foram expurgados cinco professores: Demétrio Ribeiro, Edgar Albuquerque Graeff, Edvaldo Pereira Paiva, Enilda Ribeiro e Nelson Souza, além do professor e arquiteto Luís Fernando Corona, que também lecionava naquela escola, assim como na Escola de Belas Artes, à qual era vinculado.

Em 1969, mais cinco docentes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS foram indicados pela CISMEC para o expurgo: Ari Mazzini Canarin, Carlos Maximiliano Fayet, Emílio Mabilde Ripoll, Ernesto Antônio Jorge Paganelli e Roberto Buys.

Ficaram conhecidos como “Grupo da Arquitetura”, pelos vínculos profissionais e político-ideológicos, e pelo significativo alinhamento de concepções teóricas arquitetônicas. É extremamente significativo o fato de que a grande maioria dos membros do grupo tenham sido alguns dos pioneiros da arquitetura moderna em Porto Alegre.

DEMÉTRIO RIBEIRO
Formado arquiteto em 1943 pela Facultad de Arquitectura da Universidad de la República, no Uruguai, Demétrio Ribeiro Neto revalidou seu diploma no ano seguinte, na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Em 1964, com 48 anos de idade, já era um antigo e reconhecido professor na UFRGS, com 18 anos de atuação no ensino de Arquitetura e com notável currículo como arquiteto. Foi um dos que, em 1946, a convite de Tasso Corrêa, fez parte do primeiro quadro de docentes nascente curso de Arquitetura vinculado à Escola de Belas Artes da URGS. Exerceu por dois anos a cátedra de Composições de Arquitetura e, de 1948 a 1951, a de Grandes Composições de Arquitetura.
No ano seguinte, através da fusão do curso em que atuava com o curso de Arquitetura que funcionava na Escola de Engenharia, foi criada a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Desde a criação da Faculdade de Arquitetura até 1964, Demétrio atuou como catedrático de Composições de Arquitetura. Concomitantemente, foi professor no Curso de Urbanismo, tendo sido regente de Teoria e Prática dos Planos da Cidade no ano de 1957, bem como de Evolução Urbana de 1955 a 1956 e de 1959 a 1963, através de contrato mediante prova de títulos.
Naquela época, Demétrio já era reconhecido como militante comunista, tanto na universidade como fora dela, e talvez mesmo em outras cidades além de Porto Alegre, pois em 1947 se candidatara ao cargo de deputado estadual pelo PCB, não logrando, contudo, ser eleito. Além disso, foi membro do Conselho de Redação da revista Horizonte, periódico cultural notoriamente vinculado ao partido. Foi Presidente do IAB RS nos anos de 1968 e 69, e Presidente Nacional do IAB de 1977 a 1980, quando desempenhou importante papel para a redemocratização do país.

ENILDA RIBEIRO
Além de assistente de Demétrio desde 1953 na disciplina de Composições de Arquitetura, Enilda Ribeiro era sua companheira. Formou-se em 1950 pela Escola de Belas Artes da UFRGS (ano em que a universidade havia se federalizado) e, em 1955, concluiu pós-graduação em Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura da mesma universidade. Assim como Demétrio, também já era, em 1964, bastante reconhecida na instituição, em função dos onze anos de atuação como docente na UFRGS. Também já possuía, à época, um notável currículo em Arquitetura e Urbanismo, destacando-se vários estudos urbanísticos para Porto Alegre e municípios do interior do Rio Grande do Sul e o projeto – feito em parceria com Demétrio – do Colégio Estadual Júlio de Castilhos (1952), uma das mais conhecidas e longevas escolas públicas de educação básica do estado gaúcho. Enilda Ribeiro também era vinculada ao PCB, assim como os professores Graeff, Paiva, Riopardense e demais membros do Grupo da Arquitetura. Em 28 de setembro de 1964, Enilda Ribeiro foi dispensada sumariamente também da Prefeitura Municipal de Porto Alegre (PMPA), onde trabalhava como urbanista.

FRANCISCO RIOPARDENSE DE MACEDO
Francisco Riopardense de Macedo, embora não tenha sido afastado da universidade em nenhum dos dois momentos (1964 e 1969), também foi instado a depor no 3º Exército: “Primeiro eu fui chamado no Exército. Era uma outra coisa repelente. A gente era chamado, mas chamado por quem? Chamado para receber as acusações. E se não fosse lá, ia preso. Não dava pra fazer nada. E eu fui”.Como observado anteriormente, apenas o fato de ser chamado a depor (no caso, no 3º Exército) era suficiente para que o indivíduo recebesse um estigma na universidade. Sem falar no dilema de consciência imposto aos que, embora investigados, eram ‘poupados’, enquanto seus colegas eram expurgados ou sofriam outras punições. Assim, entende-se que, independentemente do óbvio aspecto repressivo inerente ao expurgo, o envolvimento de um docente no processo investigatório, na condição de investigado, já constituía um tipo de violência. O docente investigado e não-expurgado poderia ser percebido por favoráveis e defensores do regime ditatorial como um “inimigo interno” e, por determinados setores de oposição, como alguém que havia abandonado a luta contra o autoritarismo, mesmo que, em ambos os casos, a realidade correspondesse ao inverso disso.

EDGAR GRAEFF
Formado em 1947 pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ), Graeff atuou como professor contratado no Curso de Arquitetura da Escola de Belas Artes da UFRGS de 1948 a 1951. De 1951 a 1960 passou a catedrático interino da Faculdade de Arquitetura da universidade e, de 1960 a 1962, tornou-se catedrático efetivo da mesma escola. Em 1962, quando a Universidade de Brasília (UnB) foi inaugura, passou a lecionar lá como professor associado, juntamente com Oscar Niemeyer.
O vínculo de Graeff com Niemeyer, que, já na época, era amplamente reconhecido como militante comunista, muito provavelmente potencializou sua imagem de militante comunista, na UFRGS, onde era um antigo professor, em 1964 completando quinze anos de docência na instituição. Lecionando na UFRGS há tanto tempo, vinculado aos demais professores de Arquitetura com notória vinculação com o PCB e sendo também um grande “animador político” como menciona Enilda Ribeiro, é de se presumir que também estivesse, em 1964, bastante associado à militância comunista.
Outro elemento possivelmente consagrador de seu vínculo com o comunismo foi sua participação na UnB, a universidade mais visada pelos grupos conservadores civis e militares que promoveram o Golpe de Estado (dada sua associação com Darcy Ribeiro, idealizador da UnB e Chefe da Casa Civil do governo Jango, assim como Niemeyer e outros profissionais vinculados ao comunismo ou ao trabalhismo). Segundo Nelson Souza (que também seria afastado naquele ano), em 1964 Graeff foi expurgado não só da UFRGS, mas também da UnB.

NELSON SOUZA
Outro membro do Grupo da Arquitetura, Nelson Souza havia sido assistente de Graeff. Esse vínculo já seria suficiente para tornar sua imagem associada ao professor e, possivelmente, também à militância comunista (como provavelmente ocorreu com Luis Fernando Corona, que foi assistente de Demétrio). Nelson Souza era de fato vinculado ao PCB, com uma trajetória de intensa atuação político-cultural junto ao partido. Trabalhando na revista Horizonte, periódico vinculado ao partido, chegou a ser seu co-diretor, em janeiro de 1956, junto com Lila Ripoll Guedes, poetisa amplamente conhecida no estado, inclusive por sua militância comunista. Nelson Souza diplomara-se como arquiteto em 1951, pela Escola de Belas Artes da UFRGS. Tendo iniciado carreira docente na UFRGS em 1953, como Instrutor de Ensino de Teoria da Arquitetura, cuja cátedra assumiu em 1962 com a ida de Graeff para Brasília. Em 1964, tinha 39 anos de idade e já era também um antigo professor da instituição, com 11 anos de docência. Ao mesmo tempo, atuou como arquiteto da Reitoria desde 1959, durante os últimos seis anos da gestão Elyseu Paglioli, portanto, já que Paglioli deixaria o cargo logo após o Golpe. Nelson Souza também seria expurgado em 1964 do cargo de arquiteto na Reitoria, assim como da Faculdade de Arquitetura.

EDVALDO PEREIRA PAIVA
O professor Edvaldo Pereira Paiva era o mais antigo na instituição. Engenheiro diplomado pela Escola de Engenharia em 1935, concluiu em 1943 especialização em Urbanismo e Arquitetura Paisagística no Instituto de Teoría de la Arquitectura y Urbanismo, órgão da Facultad de Arquitectura da Universidad de la República, no mesmo ano e na mesma faculdade em que Demétrio se formara. Atuou na Prefeitura de Porto Alegre, como engenheiro titular, de 1930 a 1960. Foi professor de Urbanismo no Curso de Arquitetura da Escola de Belas Artes, posteriormente transferindo-se para a Faculdade de Arquitetura. Tinha, assim em 1964, mais de 12 anos de docência na UFRGS. Edvaldo Paiva também era vinculado ao PCB.É possível que também fosse bastante associado à militância comunista por docentes, discentes e servidores técnico-administrativos, de um modo geral. Tal associação poderia ter sido acentuada pelo fato de Paiva ter sido assessor técnico de Leonel Brizola, quando foi governador estadual, às vésperas do Golpe (1959 a 1963), e por ter atuado no cargo de Diretor do curso de Urbanismo da UnB em 1963.
Paiva era um notório urbanista no estado (e mesmo fora dele) já na década de 1960, sendo responsável por significativa produção acadêmica na área do Urbanismo. A título de exemplo, cabe mencionar que, já em 1942, Paiva dera início à elaboração do “Expediente Urbano de Porto Alegre”, considerado um grande avanço, quanto ao planejamento urbano de Porto Alegre, em relação ao “Plano Gladosch” (de caráter marcadamente viário, elaborado entre 1938 e 1939 pelo urbanista Arnaldo Gladosch). Por volta de 1952, Edvaldo Paiva e Demétrio Ribeiro “organizaram um anteprojeto de planificação que foi inovador para a época, pois fixava normas a serem seguidas pelas quatro funções urbanas: habitação, trabalho, lazer e circulação”. Ambos atuaram de forma decisiva na estruturação do Planejamento Urbano em Porto Alegre e em especial na elaboração do Plano Diretor de 1959, junto a Nelson Souza e Carlos M. Fayet.

LUIS FERNANDO CORONA
Formado em Arquitetura em 1950 e em Urbanismo em 1952, ambos pela Escola de Belas Artes da UFRGS, tornou-se Instrutor de Ensino nas disciplinas Composições de Arquitetura I e II da Faculdade de Arquitetura e professor Interino de “Sombras – Perspectiva – Esteretomia”, junto aos cursos de Artes Plásticas e de Arquitetura da Escola de Belas Artes, bem como professor de Perspectiva e Sombras nos cursos de Pintura e de Escultura da Escola de Belas Artes da UFRGS. É autor de muitos projetos significativos, várias vezes premiado em concursos. Segundo Enilda Ribeiro, Luis Fernando Corona […] não era assim de esquerda, era sempre conversador, ele gostava muito da Arquitetura, fã do Niemeyer, e tal: foi expurgado. Só porque era assistente do Demétrio. […] Foi expurgado, o Coroninha, que a gente chamava, filho do velho. Mas foi muito triste, porque ele não esperava isso. Ele era nosso amigo, era da turma. Ele foi meio de arrastão.
As observações de Enilda podem tanto significar que Luis Fernando não compartilhasse da perspectiva político-ideológica do PCB (o que poderia incluir posicionamentos de esquerda, mesmo à época) como, de outro modo, que simpatizasse de fato com posições ao centro ou à direita do espectro político, o que parece um pouco menos provável. Independentemente disso, talvez, como observa a própria Enilda Ribeiro, o fator decisivo tenha sido seu vínculo (por afinidade profissional e/ou afetiva, através de laços de amizade) com o já mencionado Grupo da Arquitetura, particularmente o fato de ter sido assistente de Demétrio, bem como sua admiração pelo trabalho de Niemeyer.
Apesar de seu falecimento precoce aos 52 anos, atuou no projeto de alguns ícones da arquitetura moderna em Porto Alegre, como o Palácio da Justiça (junto a Fayet), o Edifício Jaguaribe (junto com o pai Fernando Corona) e a sede da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT), junto a Roberto Veronese e Emil Bered.

ARI MAZZINI CANARIN
Atuando como professor daquela faculdade pelo menos desde 1964, quando foi membro da Comissão de Ensino, o arquiteto Ari Mazzini Canarin era Professor Assistente desde 1966 na cadeira de Pequena Composição de Arquitetura, tendo sido coordenador do setor de Introdução à Arquitetura em 1968 e 1969. Participou também da Comissão de Assessoramento do Trabalho de Diplomação em 1966 e 1969. Como arquiteto, Canarin fez parte de equipes premiadas no I e no II Salão de Arquitetura do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). Venceu vários concursos e elaborou diversos projetos na área, como, por exemplo, a sede do Tribunal Regional do Trabalho. Também atuou como arquiteto na Divisão de Obras da UFRGS, de onde foi afastado em função do expurgo. Segundo a Informação da CISMEC (Comissão de Investigação Sumária do Ministério da Educação e Cultura), que baseou-se em dados oriundos do DOPS/RS, Canarin teria sido vinculado ao PCB. Ainda que os dados produzidos pelo sistema de informações muitas vezes não correspondessem à realidade, particularmente em função de seu modo de produção, não parece impossível que Canarin, assim como outros colegas seus na Faculdade de Arquitetura, efetivamente fosse simpatizante ou militante do PCB. Entender a vinculação política e o perfil político-ideológico dos expurgados obviamente não significa buscar qualquer tipo de justificação para o arbítrio, mas permite, isto sim, compreender melhor a lógica do autoritarismo e da perseguição político-ideológica. Após o afastamento sumário, Canarin passou a lecionar na UNISINOS, em São Leopoldo/RS, assim como em Canoas/RS, na Faculdade Ritter dos Reis.

CARLOS MAXIMILIANO FAYET
O arquiteto Carlos Maximiliano Fayet graduou-se em Arquitetura, no curso que existia no Instituto de Belas Artes da UFRGS e, posteriormente, também em Urbanismo, então já na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS. Tornou-se professor da Faculdade de Arquitetura em 1958, nas cadeiras de Urbanismo e de Projeto Arquitetônico. Foi afastado da Prefeitura Municipal de Porto Alegre (PMPA) em 28 de setembro de 1964, juntamente com Enilda Ribeiro e outros dez funcionários municipais. Chegou a ser convocado ao 3º Exército, prestando depoimento na mesma ocasião em que o fez Enilda Ribeiro. Diferentemente dela, entretanto, não foi expurgado da UFRGS em 1964, o que só aconteceria em 1969. Na ocasião, Carlos Fayet tinha 39 anos de idade. Pouco tempo depois do expurgo, em 1970, teria sido reintegrado, assumindo a titularidade da disciplina de Teoria e Prática dos Planos de Cidades. Fayet foi autor de vários projetos no Rio Grande do Sul, destacando-se dentre eles o novo Auditório Araújo Viana (co-autoria com o arquiteto Moacyr Moojen Marques), na Av.Osvaldo Aranha, o Palácio da Justiça (co-autoria com o arquiteto Luis Fernando Corona), o Ceasa (co-autoria com Eladio Dieste), a sede do Instituto dos Arquitetos do Brasil – Departamento do Rio Grande do Sul (IAB-RS) e a Praça Itália (entre as avenidas Praia de Belas e Borges de Medeiros), todos em Porto Alegre, assim como a Refinaria Alberto Pasqualini (co-autoria com o arquiteto Cláudio Araújo), em Canoas/RS, o Terminal Rodo-Aquaviário de Vitória/ES e o Parque Ecológico de Guarapiranga/SP. Foi Presidente Nacional do IAB, e do IAB-RS, da Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura (ABEA), assim como Conselheiro Federal e Vice-Presidente do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CONFEA). Recebeu a Medalha do Mérito do CONFEA e o Colar de Ouro do IAB. O arquiteto tinha, em 1969, onze anos de docência na UFRGS. Comentava que, na década de 1960, não tinha vínculos políticos, e considerava-se um liberal. Considerando o tempo em que fora aluno dos cursos de Arquitetura e de Urbanismo, é possível supor que tivesse significativo reconhecimento no meio universitário e, particularmente, entre os servidores (técnico-administrativos e docentes) e estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Fayet faleceu em 19 de março de 2007, em Porto Alegre.

EMÍLIO MABILDE RIPOLL
Outro docente expurgado da Faculdade de Arquitetura em 1969 foi o prof. Emílio Mabilde Ripoll. Segundo sua viúva, Nelly Bruck Ripoll, ele estudara no CMPA, vindo de Rio Grande/RS. Teria chegado a prestar exame na Escola Militar do Realengo, supostamente por influência do pai, mas não fora aprovado. “Porque ele não queria ser militar de jeito nenhum”, conta Nelly Bruck Ripoll. “Ele disse que não queria passar. Aí voltou e fez vestibular para Matemática. Em 1943 começou a lecionar no colégio Júlio de Castilhos, à época uma das melhores escolas de Porto Alegre. Pouco tempo depois, resolveu fazer o curso de Arquitetura. Começou a frequentar as aulas do curso que, então, funcionava no Instituto de Belas Artes. Formou-se arquiteto em 1947, com 28 anos de idade. Nelly Ripoll se recorda que, no início da década de 1950, quando “[...] morreu o Lutzenberger, que era muito amigo dele [de Emílio Ripoll], botaram-no no lugar do Lutzenberger. Emílio Ripoll então assumiu a disciplina de Perspectiva e Sombras, na qual o arquiteto alemão havia lecionado desde 1938. Em 1960, foi representante da Congregação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo no CONSUN, presidindo também a Comissão que elaborou e implementou o projeto de Reforma Universitária na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, em 1962. Expurgado em 1º de setembro de 1969, no dia 25 daquele mesmo mês completou 50 anos de idade. Na ocasião, já contava com quase vinte anos de docência. Além disso, participara ativamente, como estudante universitário, da política estudantil, chegando mesmo a ser eleito “líder no Centro Acadêmico”, onde “liderava movimentos de melhoria de ensino”. Por outro lado, Emilio Ripoll nunca foi filiado a nenhum partido político e, ideologicamente, “era muito liberal” e “simpatizava muito com os partidos de esquerda, naturalmente, pela ideologia dele”. A poetisa Lila Ripoll, conhecida militante comunista gaúcha, não era sua parente, apesar de terem o mesmo sobrenome. Com base nisso, é possível inferir que fosse bastante reconhecido na universidade, especialmente nos espaços em que atuou, como pessoa de perfil político-ideológico de esquerda. Além disso, sua amizade com professores da Arquitetura com notório vínculo com o PCB, pode ter contribuído para que tal reconhecimento fosse acentuado.

ERNESTO ANTÔNIO JORGE PAGANELLI
Diplomado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS em 1960, Ernesto Antônio Jorge Paganelli fez estágios em Urbanismo em países europeus e cursos de Arquitetura e Urbanismo no Brasil e no exterior. Na UFRGS, começou a lecionar em 1964, como Professor Colaborador do Departamento de Projetos, função em que permaneceu até seu expurgo em 1969. De 1965 a 1966, foi membro da Comissão para Atualização dos Programas de Ensino. Em 1967, coordenou a Equipe de Projetos para Concurso na Bienal de São Paulo. Em 1968, foi professor do 4º Semestre do Ateliê “D” da Criação. Em 1969, coordenou o Ateliê nº 3 de Criação e Projetos e foi membro da Comissão de Seleção de Projetos escolhida para representar a UFRGS na Bienal de São Paulo. Ainda naquele ano, recebeu convite para fazer parte do corpo docente do Instituto Central de Artes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB. Com o expurgo e a consequente impossibilidade de lecionar em qualquer instituição pública de ensino, em tese, essa alternativa também lhe foi negada. Como arquiteto, trabalhou de 1963 a 1969 no Departamento de Planejamento Regional e Urbano da Secretaria de Obras Públicas do Rio Grande do Sul, bem como, de 1967 a 1969, foi chefe da seção de Paisagismo e Renovação Urbana do Departamento de Planejamento Regional e Urbano de Porto Alegre. Provavelmente fora afastado também desses cargos, seguindo o padrão dos demais professores de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS que também atuavam junto ao serviço público estadual ou municipal e que, tendo sido expurgados da universidade, também o foram do estado ou do munícipio.
Na segunda metade da década de 1970, Paganelli trabalhou na elaboração do Plano Diretor de Chapada dos Guimarães, na equipe liderada por Maria Elisa Costa (filha de Lucio Costa) e que contava também com Paulo Jobim e Othon Berardo, e ainda com o próprio Lucio Costa como consultor. Foi eleito 2º secretário da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA) em maio de 1986, para a gestão 1986-1989. Não foram encontrados indícios de seu perfil político-ideológico. Em 1969, contava cinco anos como docente na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS. Era, portanto, um professor recente na instituição. Contudo, entende-se que mesmo tal trajetória relativamente recente durou tempo suficiente para que Paganelli se tornasse conhecido na UFRGS e, particularmente, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

ROBERTO BUYS
Por fim, de Roberto Buys apenas há indício de que seria vinculado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS, onde teria atuado como assistente de Emílio Mabilde Ripoll.