Incêndios & Teorias Patrimoniais

Data: 16/05/2019
Por: Luiz Antônio Bolcato Custódio

O lamentável e comovente incêndio na Catedral de Notre-Dame de Paris está oportunizando, em escala mundial, uma rica reflexão acerca de prevenção e preservação, passando a incluir a teoria do restauro. E pode ser relacionada com recentes situações nacionais, também traumáticas.

Em Porto Alegre, tivemos em 2013 o quarto incêndio do Mercado Público, que destruiu metade do segundo pavimento. O restauro, concluído em 2016, optou por valorizar as estruturas remanescentes da edificação eclética, mantendo sua configuração externa e usando técnicas contemporâneas e materiais incombustíveis nas substituições.

No grande incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro de 2018, além do importante edifício histórico neoclássico, foi perdido o maior acervo museológico já reunido no Brasil, que abrangia o período imperial e muitas outras manifestações culturais e científicas. Até o momento, no entanto, não foram divulgadas as diretrizes para o projeto de recuperação arquitetônica.

A catedral de Notre-Dame carrega uma larga história de ampliações e modificações. Resistiu a saques, revoluções e guerras. A obra, iniciada em 1163, foi construída no estilo nacional francês, o gótico, típico da Idade Média. Já protagonizou uma grande polêmica a partir das obras de Eugène Viollet-le-Duc, concluídas em 1864, quando sua fachada foi significativamente alterada, com introdução de novas imagens, das famosas gárgulas e instalada a segunda agulha central (la fleche) com estrutura de madeira e cobertura em chumbo, estilo neogótico, no local onde esteve a inicial (1250), apoiada nas estruturas de madeira e demolida em 1792 por problemas estruturais. Seu projeto de restauro previa, inclusive a colocação de agulhas semelhantes nas duas torres frontais. 

A crítica aos critérios de intervenção adotados por Viollet-le-Duc, considerados como falso-histórico (por imitar épocas passadas) e classificados como restauro estilístico (por privilegiar um único estilo), contribuiu para o estabelecimento desta área especializada e definição das primeiras teorias do restauro. Logo se sucederam os primeiros movimentos preservacionistas que defendiam a manutenção de estruturas originais, consideradas como documentos de época e testemunhos autênticos. Na Inglaterra, deu lugar à criação da SPAB (Sociedade para Preservação de Edificações Antigas) por Willian Morris e John Ruskin. No século XX, tivemos a escola moderna do restauro, na Itália, com Camilo Boito e Gustavo Giovanonni e na Áustria com Alois Riegl. Da Europa, estes movimentos se espalharam pelo mundo por meio de estruturas orgânicas como o ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos e Sítios), que definiu diretrizes nas Cartas Patrimoniais, com teorias e referências técnicas vinculadas à diferentes situações culturais, registrando a evolução do pensamento conceitual, em cada época.

Na mesma semana do incêndio de Notre-Dame, o primeiro-ministro francês adiantou o tom que teria sua recuperação, anunciando um Concurso Internacional de Arquitetura para “reconstruir” (a terceira versão) a agulha, “adaptada às técnicas e desafios de nossos tempos”.

A iniciativa do concurso colocou o projeto de restauro em outro patamar. Reconheceu o valor universal da catedral e abriu espaço para uma discussão técnica que certamente ampliará o conhecimento da trajetória e tectônica da edificação, assim como dos critérios de intervenção e das técnicas passíveis de serem empregadas. Ou seja, uma oportunidade de aprofundar e difundir o que nesta área se denomina ética do restauro, maneira como se aborda uma obra desta natureza. Um monumento que teve inúmeros autores e sucessivas modificações ao longo do tempo, e que hoje é considerada uma contribuição humana excepcional, declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO.

A cidade (e o mundo) já havia presenciado, no passado, uma ousada intervenção contemporânea junto a um monumento icônico, na Pirâmide do Louvre, encomendada pelo presidente Mitterrand ao arquiteto chinês, Pei, e que gerou acaloradas reações. Certamente a polêmica se estruturará, novamente, contrapondo a apressada posição de refazer “como era, onde era” (qual era?), um critério que produziu inúmeros falsos históricos nos períodos pós-guerras, aos conceitos atuais de restauro, onde, teoricamente, não há espaço para reproduções anacrônicas.

E a terceira agulha? Depois de muita discussão, esta poderá ter um redesenho (em titânio ou cristal, multifacetado, a iluminar a catedral). Ou, simplesmente, não ter. Salvo melhor juízo. 

Luiz Antônio Bolcato Custódio
Arquiteto do IPHAN.
Porto Alegre abril de 2018