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A OSPA, A ARQUITETURA E A CIDADE

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A Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, instituição de grande significado para o panorama cultural de nossa cidade e nosso Estado, está agora em processo de construir sua nova sede, própria, uma adequada sala de concertos. Na década passada, foi realizado um concurso para a obtenção de um projeto arquitetônico, tendo sido escolhido um vencedor. A obra deveria ser erguida em local junto ao Guaíba, na ponta da península entre o Cais Mauá e a Usina do Gasômetro, e estaria associada a um projeto maior de recuperação de toda a área do Cais Mauá. No entanto, a recuperação do porto, como se pretendia, acabou não sendo levada adiante naquele momento, assim como aquele projeto para a sala de concertos da OSPA. Dado o grande interesse cultural para a cidade da realização de uma verdadeira sala de concertos, a notícia de que a OSPA iria ganhar uma nova casa foi certamente motivo de entusiasmo, assim como a não realização da obra constitui-se em uma decepção. Recentemente, no entanto, teve-se notícia de que a OSPA recomeçou o processo para construir sua nova sede. Mas o projeto que ganhara o concurso foi simplesmente deixado de lado. Foi feita uma opção, pela OSPA, no sentido de adotar um novo projeto, desta vez sem realização de concurso, a ser erguido em um outro sítio, e não no local que fora previamente designado. Basicamente as razões para esta mudança de planos parecem estar ligadas a questões de custos e de rapidez na realização da obra. O que nos preocupa aqui, no entanto, não é a discussão de aspectos pragmáticos como estes, muito menos discutir aspectos operacionais da orquestra e de suas apresentações, o que não nos cabe, mas um outro aspecto, que entendemos ser de grande importância, envolvido na questão, e sobre o qual gostaríamos de propor uma reflexão. Trata-se da contribuição para a cidade, em termos de sua arquitetura e localização, que entendemos que a OSPA, pela sua importância como instituição cultural, poderia e deveria preocupar-se em realizar. Também não se trata aqui, de modo nenhum, de questionar a competência e capacidade técnica dos profissionais envolvidos ou de defender determinada proposta em particular, mas, sim, de discutir uma questão de princípios, o que em princípio, pensando no contexto mais amplo da cidade e de seu desenvolvimento cultural e arquitetônico, entendemos que poderia ser a contribuição da OSPA. Assim, sob este ponto de vista, parece-nos lamentável a decisão da OSPA de construir no sítio da antiga cervejaria Bopp, na Avenida Cristóvão Colombo, abandonando a idéia de construir junto ao porto, assim como lamentamos a decisão de adotar um novo projeto sem concurso de arquitetura. A nosso ver, isto priva a cidade de ter um debate arquitetônico muito profícuo e uma obra de arquitetura exemplar, derivada de concurso, e num local bem mais interessante, com impacto muito mais positivo na paisagem urbana (como entendemos que seria o caso de uma construção na ponta da península, junto ao Guaíba, associada a toda a questão da recuperação do porto). Desse modo, ao invés de contribuir para a cidade e a cultura local de uma forma mais cabal, pensando-se como um elemento do nosso conjunto de manifestações e instituições culturais, a OSPA toma uma atitude isolada, ao nosso ver precipitada, e pretende “esconder-se”, por assim dizer, num local apertado, onde não terá expressão arquitetônica significativa para o meio urbano e correrá o risco de comprometer a qualidade de um conjunto de edificações históricas que não necessita da OSPA para sua qualificação. Entendemos mesmo que haverá uma perda para a própria OSPA, que deixará de ter a sua sede construída como um dos elementos mais marcantes da paisagem urbana, divulgada num dos principais cartões postais da cidade. Imaginemos o que seria para a OSPA estar em cartões postais correndo pelo mundo! Seu nome seria muito mais conhecido e contribuiria para a imagem de Porto Alegre como uma cidade de alto nível cultural.
Considerando o problema da qualificação arquitetônica e urbana da cidade, assim como de sua vida social e cultural, portanto, parece-nos que o abandono da idéia de construir a nova sala de concertos junto ao porto e ao Gasômetro representa uma perda significativa, a perda de uma oportunidade que não aparecerá novamente tão cedo na cidade. Em primeiro lugar, deixa-se de fazer arquitetura de qualidade onde a cidade precisa, num local que, pela sua enorme importância na paisagem urbana, requer uma abordagem arquitetônica especial, capaz de dialogar com a linha das construções do porto e com a Usina do Gasômetro, completando o perfil da cidade visto do Guaíba (parece faltar algo ali, que constituísse uma terminação para a ponta “solta” da linha de armazéns do porto e que estabelecesse uma relação de diálogo com a usina, propondo uma idéia de continuidade do contorno da península), mas ao mesmo tempo capaz de se constituir numa contribuição arquitetônica de qualidades excepcionais. Ao invés disso, propõe-se fazer algo onde a cidade não precisa, pois a construção histórica existente no novo sítio escolhido já apresenta interesse arquitetônico suficiente. Em segundo lugar, corre-se o risco de se criar algum problema para a percepção da construção histórica da antiga cervejaria. Em terceiro lugar, no sítio desta, a nova sala de concertos tenderia a ficar por assim dizer “escondida”, constituindo-se basicamente apenas em um interior e, portanto, deixando de ter uma presença pública mais significativa, perdendo em termos de expressão arquitetônica e de uma imagem pública forte, que poderia engrandecer a própria imagem da orquestra e torná-la mais conhecida.
Talvez o próprio hábito de estar “escondida” em um teatro no porão de um prédio inacabado ou a imagem da nova sala de concertos de São Paulo estejam influenciando as decisões da OSPA, que parece querer seguir o exemplo de utilizar um prédio histórico. No nosso caso em Porto Alegre, no entanto, não nos parece que o prédio histórico em questão esteja precisando da OSPA ou que possa beneficiar-se arquitetonicamente desta. E entendemos que há outros exemplos de fora que poderiam ser bem mais sugestivos para nós. Estando a nossa cidade junto à água, possuindo uma paisagem bem mais interessante do que a capital paulista, e podendo-se dispor de um sítio junto ao Guaíba, parece-nos que esta situação poderia ser explorada, trazendo mais vantagens. Vêm-nos à mente exemplos de edifícios para apresentações musicais como o da Ópera de Sydney, com sua magnífica e poderosa presença junto à baía, ou da Ópera de Gotemburgo, na Suécia, também construída junto a um rio e ao antigo porto da cidade, ou ainda o do Royal Festival Hall, em Londres, construído em frente ao Tâmisa, participando da paisagem do rio. No caso do primeiro exemplo, principalmente, cabe destacar a importância da situação da obra arquitetônica junto à água e da maneira como o projeto soube estabelecer relações formais marcantes com o entorno, a ponto de a obra se tornar o maior símbolo da cidade, com poder suficiente para torná-la conhecida em todo o mundo. Não queremos aqui, evidentemente, afirmar que se devem copiar esses exemplos em suas formas arquitetônicas (o que seria um absurdo), nem que exemplos estrangeiros, por serem estrangeiros, são melhores, mas queremos simplesmente argumentar, por um lado, no sentido de que edifícios destinados à música têm sido capazes de agregar qualidade arquitetônica às suas cidades, particularmente em casos em que foram construídos junto à água e souberam explorar as relações com o entorno, e, por outro, que Porto Alegre teria uma possibilidade de ter uma situação análoga. Na comparação com São Paulo, além de Porto Alegre estar num sítio bem mais atraente e ter potencialidades, na relação entre paisagem natural e arquitetônica, que São Paulo não apresenta, há, por outro lado, o fato de que São Paulo dispõe de vários outros exemplares de arquitetura de alto nível, obras conhecidas e valorizadas internacionalmente, não dependendo de uma ou outra obra em particular para garantir a alta qualificação desse patrimônio arquitetônico, o que infelizmente não é o caso de Porto Alegre. Se quisermos ter um patrimônio arquitetônico mais substancial, que apresente alto grau de interesse, em nossa cidade (inclusive como forma de divulgar a imagem da cidade e atrair turismo, o que sempre tem sido uma aspiração), não podemos desperdiçar as oportunidades que aparecem.
O desperdício de oportunidades arquitetônicas tem sido infelizmente recorrente em nosso meio. Muitas vezes, devido a questões pragmáticas, por assim dizer, acaba-se optando por soluções mais fáceis e rápidas ou desconsiderando a possibilidade de se buscar soluções que num prazo mais longo e numa visão mais ampla poder-se-iam revelar mais enriquecedoras. Às vezes há problemas burocráticos ou políticos, ou o desejo de se construir algo “logo” e mais barato (mas não necessariamente melhor sob um ponto de vista econômico mais abrangente), sem uma reflexão mais profunda. Porto Alegre, por exemplo, lamentavelmente perdeu a oportunidade que era oferecida quando se decidiu construir um novo terminal no aeroporto. Ao invés de se aproveitar para aprofundar um debate arquitetônico, realizar um concurso e obter um projeto arquitetonicamente rico (o que seria de se esperar em se tratando de um aeroporto internacional, uma das entradas da cidade, como ocorre em outros lugares do país e do mundo), foi encontrada uma solução interna, tecnicamente adequada e que resolve o problema funcional do aeroporto, mas que deixa a desejar em termos de investigação arquitetônico-formal. Novamente, não se trata aqui de questionar a competência e saber técnico dos profissionais envolvidos, mas de questionar as estruturas burocráticas, políticas, ideológicas e mesmo legais que impedem que obras importantes para uma cidade sejam objeto de um concurso de arquitetura de alto nível e sejam tratadas como realizações que agreguem alta qualidade arquitetônica e cultural à cidade. Quando a oportunidade de uma obra desse porte e importância, oportunidade essa que não aparecerá novamente por muitos anos, e que de qualquer forma representa um custo elevado de construção, é simplesmente desperdiçada em termos de qualificação arquitetônica para a cidade, realmente têm-se motivos para se desanimar quanto à possibilidade de um enriquecimento significativo de nosso patrimônio arquitetônico. Poderíamos ainda mencionar o caso das paradas e terminais de ônibus feitos mais recentemente e nas novas avenidas de Porto Alegre. Quando vemos o que é feito em Curitiba, por exemplo, realmente vemos que esse tipo de estrutura pode ser bem melhor e mais elegante.
Porto Alegre parece sofrer de um paradoxo: por um lado, tem uma das melhores (se não a melhor, pelo que indicaria o recente “provão” realizado pelo Ministério da Educação) faculdades de arquitetura do país, mas a cidade parece ficar bastante atrás de várias outras cidades do Brasil em termos de interesse arquitetônico. Seriam os nossos profissionais menos qualificados? Ou haveria certas tendências a resolver as coisas de modo simplista e pragmático, já sedimentadas em nosso meio e modo de pensar, de acordo basicamente com certas ideologias ou com interesses econômicos, financeiros e talvez políticos, mais imediatos ou imediatistas, que estariam minando as oportunidades que aparecem e acostumando a sociedade local a uma visão estreita e a uma espécie de mediocridade arquitetônica?
Outra tendência danosa para a qualidade arquitetônica da cidade é a de ver as coisas, no caso, principalmente, o contexto urbano, de forma fragmentária, sem uma busca concertada de esforços para atingir um objetivo maior comum e mais enriquecedor. Infelizmente, temo-nos acostumado a uma forma urbana altamente fragmentada, desarmônica, contrastante no sentido negativo (e não em termos positivos, pois contrastes podem ser interessantes e positivos), marcada pelo individualismo e pelos interesses econômicos privados. A cidade carece de “desenho urbano” (mesmo havendo “planejamento urbano”). Para o próprio porto e para a ponta da península houve propostas fragmentárias, que não levavam em conta a grandeza do conjunto e seu potencial estético, cultural e de uso para a sociedade. Um imediatismo ou um utilitarismo levou, por exemplo, à consideração da instalação de uma cervejaria (o que felizmente não aconteceu) na ponta da península, local que deveria ser objeto de um projeto muito mais qualificado em todos os sentidos. Seria mais uma iniciativa isolada e uma oportunidade perdida, pois bloquearia um sítio com enormes possibilidades por um certo tempo, pelo menos.
O mesmo tipo de pensamento fragmentário, individualista e imediatista parece ter determinado a recente decisão da OSPA sobre seu teatro. E além de limitar sua contribuição arquitetônica para a cidade e para a paisagem urbana, a OSPA também deixará de colaborar para o processo de recuperação da área do porto e, por extensão, de todo o centro. A presença da sala de concertos junto ao Guaíba e ao porto seria benéfica para o local, trazendo para ele público que poderia alimentar outras atividades culturais e de lazer que seriam implantadas no Cais Mauá, as quais, por sua vez, poderiam alimentar o próprio público da orquestra. Poder-se-ia pensar numa alternativa para a presença da orquestra junto ao porto. Fala-se num museu de arte contemporânea, por exemplo. Na falta da sala de concertos, talvez pensar em um museu seja o que nos reste: é um equipamento cultural de alto nível e que pode vir a ser objeto de um tratamento arquitetônico de alta qualidade. No entanto, parece-nos que a sala de concertos seria mais interessante naquele lugar específico. Uma vantagem nítida de um equipamento para apresentações musicais, em relação a um museu, para a recuperação de uso da área do porto, é que o primeiro tem público noturno, colaborando para a desejada recuperação da vida do centro à noite. A atividade de um museu é normalmente diurna, apenas. Concertos noturnos poderiam dinamizar a área, que ofereceria um programa de atividade cultural associada ao lazer e à apreciação, inspirada após um concerto, por exemplo, da belíssima paisagem e do contato com a água. As pessoas poderiam ir a um concerto, passear pela promenade do cais, jantar em restaurantes à beira do rio, unindo beleza, cultura, lazer. Caminhar junto a um rio numa bonita noite após um concerto é uma experiência bela. Esta possibilidade de associação de atividades de uma forma rica, colaborando para reativar a vida no centro e aproveitando-se de uma paisagem atraente poderá ser perdida. E não só o porto perderá com isto, mas a própria orquestra, pois as outras atividades e atrações que o porto ofereceria seriam certamente mais interessantes do que a atividade disponível no sítio onde a orquestra pretende localizar-se, e poderiam também tornar mais atraente a própria ida a um concerto.
Não se podendo contar com a OSPA, fica perdida a chance que se apresentou em Porto Alegre de se ter um edifício para apresentações musicais junto ao porto. Não haveria uma alternativa do gênero, já que Porto Alegre não comporta uma casa de ópera, por exemplo. No momento em que a orquestra sinfônica existente precisa de um novo edifício, esta seria a chance ideal. Mas com a retirada da OSPA, teremos então de pensar talvez num museu. E teríamos aí a dúvida de se Porto Alegre, que já está ganhando um novo museu de arte moderna, o Museu Iberê Camargo, ainda comportaria um outro (em termos de público e de gastos – pois apenas do ponto de vista da preservação da cultura sempre é justificado). Poderia aí se dar mesmo uma situação de aumento de gastos ao invés de economia, pois, mesmo que a obra da OSPA saia mais barata, a cidade ainda teria de construir um outro edifício monumental se quisesse recuperar pelo menos parte daquilo que poderia ter tido com a OSPA junto ao cais. Quem sabe se não seria mais econômico para a cidade simplesmente gastar um pouco mais com a sala de concertos e resolver o problema? Além disso, como já foi dito, um museu seria talvez menos interessante para o lugar, pois sua atividade tende a se resumir ao dia. Um teatro poderia ter o mesmo efeito, em relação a este aspecto, que a sala de concertos, mas a cidade talvez não comporte por enquanto mais um teatro de proporções, mesmo porque já está sendo ampliado o Teatro São Pedro. Portanto, atuando de forma conjunta com outras atividades, pensando-se como uma instituição que faz parte de um conjunto de iniciativas culturais do Estado e, portanto, solidária com iniciativas culturais de outras naturezas, a OSPA poderia dar uma contribuição bastante considerável à cidade com sua nova sala, se construída junto ao Guaíba e ao porto, não apenas em termos arquitetônicos, mas também em termos funcionais, por assim dizer, colaborando para a recuperação e qualificação de usos e atividades em uma área importante para a cidade. Uma orquestra deveria saber, mais do que ninguém, o quanto é importante a união de esforços individuais, de forma concertada, para a realização de um objetivo coletivo maior.

Renato Holmer Fiore
Professor da Faculdade de Arquitetura da UFRGS
setembro/outubro de 2004

Por: Diretoria Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB

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