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Arquitetura dos Espelhinhos

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Este ano comemorou-se no Brasil os 500 anos da chegada dos luso-europeus às costas da Bahia, data em que o nosso país foi descoberto oficialmente. As criaturas que já viviam aqui, vulgarmente conhecidos como índios, eram na realidade uns coitados que nunca tinham descoberto nada mesmo, e portanto não nos interessa a versão dos seus poucos descendentes a respeito desta história. Corte! Coincidência ou não, este ano desembarcou em Porto Alegre o arquiteto português Álvaro Siza Vieira, que, ao contrário dos seus ascendentes, virá para construir e não para destruir. Aqui estará para visitar o terreno para o qual está desenvolvendo o projeto da Fundação Iberê Camargo, Museu que abrigará as obras deste importante artista sul-riograndense. Será, dizem, a primeira obra de um importante arquiteto internacional no Brasil, e até mesmo na América Latina.
Outra vez estamos sendo descobertos para o mundo civilizado pelos luso-europeus.
Nos tempos de Cabral, o descobridor do Brasil, aqui nestas terras não existiam conquistadores nem colonizadores, porquê, como já mencionei, só existiam índios, e quem se importa com eles? Porém, por uma série de acasos e circunstâncias históricas, hoje em dia já existem arquitetos, claro que não tão brilhantes, competentes e bonitos como os que vem de fora, mas, felizmente ou não, eles existem.
Eu, por outra série de coincidências deste tipo, acabei me formando arquiteto. Veja só! E agora me sinto no dever de manifestar minha opinião a respeito da ruidosa polêmica que se criou em torno da importação de arquitetos para construir os monumentos da nossa cidade.
Apesar do disfarçado cinismo deste texto, não pretendo, em nenhum momento, discutir o brilhantismo, a competência ou a beleza do arquiteto Álvaro Siza ou de qualquer outro Arq Pop Star, pois não tenho dúvida que eles serão capazes de dar-nos boas lições de arquitetura e civilidade. Assim como tenho certeza também que o intercâmbio social, artístico, etc, entre as mais diversas culturas é desejado, necessário e muito bem vindo. Porém, não é o que acontece neste caso e tenho muito claro que a questão a tratar é outra.
O fundamental na minha opinião é discutir até quando estaremos importando soluções e nos subjugando às lógicas impostas internacionalmente em vez de instrumentalizar-nos para atuar com competência na nossa cidade e na nossa sociedade? Até quando nos omitiremos da nossa responsabilidade de formação analítica e crítica e do desenvolvimento de soluções próprias para os nossos próprios problemas? Até quando estaremos imitando modelos exóticos em vez de descobrirmos, valorizarmos e assumirmos a nossa própria cultura? Até quando continuaremos a nos colocar “aos pés” dos colonizadores e sermos tratados como os pobres índios que ganham espelhinhos e o que realmente querem ver é a imagem do colonizador refletida?
E se estas discussões não interessarem, pois que venham todos os Arq Pop Stars, para dar-nos lições, e ensinar-nos arquitetura de verdade, e assim, quem sabe um dia, miraremos no espelhinho e veremos uma bela imagem refletida, brilhante, competente e bonita, mas que seguramente não terá nada que ver com a nossa própria cara. E, quem sabe assim, poderemos ver a nossa cidade nas revistas internacionais de arquitetura. Já imaginaram um número exclusivo de uma daquelas japonesas de fotos bonitas estampando na capa obras de Arq Pop Stars realizadas neste fim-de-mundo que é capital da nossa província.
Que emoção, nem posso imaginar… Viva a Recolonização do Brasil!

Por: Diretoria Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB

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