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Bisturis, Batutas e Urbanidade – a questão do novo Teatro da OSPA

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J á está em andamento a construção do novo Teatro Sinfônico da OSPA [maquete ao lado]. O projeto, que está avaliado em R$ 10 milhões, no entanto, vem recebendo críticas de arquitetos, principalmente porque não passou por seleção em um concurso público. É o que contesta o vice-presidente do IAB-RS e membro do Conselho Estadual da Cultura, arquiteto Iran Rosa, no artigo a seguir O Teatro da OSPA será transferido de local, conforme anunciado na APLAUSO 51. Recebemos essa notícia, no IAB-RS e no Conselho Estadual da Cultura, como uma sucessão ruidosa de movimentos descompassados e arrítmicos. Um novo projeto – que está sendo concebido e executado na gestão do cardiologista Ivo Nesralla – brota assim, do nada, com a forma de uma caixa de sapatos, “de acordo com as mais modernas tecnologias” (!), junto ao conjunto de prédios tombados da antiga Cervejaria Brahma, inserido em um contexto urbano já complicado e trombótico, prestes a se romper. Urbanidade se refere não somente às questões urbanas em si, mas às relações humanas, conforme consta nos dicionários: delicadeza; civilidade; cortesia; afabilidade. Portanto, comparar o trabalho de um urbanista com o de um médico cirurgião é bem plausível. De um lado a lapiseira, do outro o bisturi. Aqui o paciente chamado cidade, ali um indivíduo. Devemos supor que um bisturi será usado com delicadeza e civilidade, pois o corpo humano é sensível, não desejamos ser trucidados numa mesa cirúrgica. Estando no lugar de pacientes, que nos tratem com afabilidade, afinal, somos humanos. O urbanista, ao traçar por sobre a cidade, o faz com o mesmo sentimento e habilidade. Sabe-se que para atingir bons resultados em tudo o que se faz é necessário o conhecimento das etapas a serem cumpridas e a sua ordenação. Assim, não se pode acreditar que uma cirurgia se inicie pelo corte sem antes o paciente ter sido preparado, anestesiado. Para desfrutarmos dos mágicos momentos proporcionados pela execução de uma peça musical são necessários anos de estudo e treinamento e horas de ensaio pelos integrantes da equipe que faz uma orquestra sinfônica. Pergunto-me então: por que, ao se tratar de um espaço em que se preza a organização, o ensaio não aconteceu? Sim: desejo, como muitos, que Porto Alegre tenha um espaço adequado para sediar sua orquestra sinfônica, a nossa OSPA! Tão querida, protagonista de momentos históricos, realizadora de encantos que hão de perdurar na memória de tantos amantes das artes. Mas também desejo que sua sede seja a mais elegante e eficiente do mundo e que esteja corretamente inserida no contexto urbano e ambiental da cidade. Desejo que o novo Teatro da OSPA tenha o respaldo da lei (especialmente da Lei Federal nº 8.666/93, que institui normas para licitações e contratos realizados pela administração pública), do Estado, dos cidadãos e da comunidade das artes e da arquitetura. Por isso, peço que a nova sede da OSPA nasça através de um Concurso Público Nacional de Arquitetura, atendendo a legislação federal vigente e legitimando-se junto à sociedade. Em 1524, Michelangelo, Sansovino e Palladio participaram de um concurso para a Ponte do Rialto. E perderam! Em 1844, Viollet-le-Duc ganhou um concurso para a restauração da Catedral de Notre-Dame, em Paris. Exatamente: um concurso de arquitetura no século 16 e outro no século 19. Enquanto isso, quase 200 anos depois – e talvez séculos separados de Veneza e Paris –, em Porto Alegre um cirurgião decide o local e a forma de um teatro. Estamos convivendo com uma operação sem plástica, em que é enxertado um abcesso em forma de caixa de sapatos, em que o tecido urbano é rasgado, gerando desmedida cicatriz e consolidando um verdadeiro nó nesse sistema viário em iminente trombose. Não creio que qualquer médico permitiria tamanha intromissão no trato com algum de seus pacientes. Ora, a cidade é um paciente. E os doutores que a analisam, diagnosticam e curam suas enfermidades são os arquitetos e urbanistas. Será que estes não sentem-se ofendidos? Creio que sim. Ofendidos por nem sequer terem sido consultados. Mais ainda pelo, digamos, curandeirismo urbano. Lembro que o novo Teatro da OSPA já foi objeto de concurso público promovido pela Secretaria de Estado da Cultura e organizado pelo IAB-RS, em 1998. Não que o projeto vencedor – escolhido de forma justa e democrática, e que determinava a construção do teatro junto à Usina do Gasômetro – tivesse de ser construído agora. Até porque, dizem, o local deve se tornar sede de um complexo gastronômico. O que lamentamos é que o atual presidente da OSPA não compreende que para orquestrar a sinfonia que propõe é necessário que todos os integrantes da equipe contribuam com suas habilidades e competências específicas em tempo.

Tenho a clara convicção de que, ao adotar a via correta, todos os esforços empreendidos pela presidência desse órgão do Estado serão devidamente recompensados. Com civilidade e cortesia, o bisturi precisa ser deixado de lado para que os arquitetos ergam suas lapiseiras. Assim a população terá a oportunidade de, num futuro próximo, assistir ao maestro alçar sua batuta dando início ao primeiro movimento com dignidade, respeito e ética.

Iran Rosa
arquiteto e urbanista
Vice-Presidente IAB-RS
Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento do Rio Grande do Sul
Conselheiro de Estado da Cultura

Artigo publicado na Revista Aplauso nº 52, de dezembro de 2003, pág. 35.
a Versão Integral pode ser obtida em: www.iab-rs.org.br/artigo/?art=331 (file:///C:/conteudo%20iab%20atual/iab/www.iab-rs.org.br/artigo/index7edf.html?art=331)

Por: Diretoria Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB

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