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De Brasília a Chandigarh

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Corria o mês de março de 1968, quando chegamos em Brasília, eu, o Paulo Mendes da Rocha, Neudson Braga, José Liberal de Castro. O Paulo Magalhães já vivia em Brasília. Era o grupo de trabalho indicado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil para estudar e propor a reabertura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília, por solicitação da Reitoria e dos estudantes. É que a FAU-UnB havia sido fechada em 1967, pelos estudantes, como protesto pela má qualidade do ensino, conseqüência dos desmandos administrativos produzidos no Campus da UnB. O Regime Militar (1964-1984) já havia demitido sumariamente, por motivos políticos, 15 professores. Os outros 200 docentes, em represália, pediram demissão. Assim eu vivi Brasília sob o Regime Militar, por oito anos. É mais legítimo, portanto, de minha parte, um depoimento como cidadão brasiliense, além da visão técnica de arquiteto e urbanista. Nesse contexto autoritário consegui entender as contradições entre a ideologia do projeto de Lúcio Costa, uma cidade como templo da democracia, e o seu destino, logo após seu nascimento, transformando-se no tempo do Regime Militar. Percebi, desde logo, a fragilidade das ideologias do desenho, quando pretende determinar o rumo dos acontecimentos sociais, a felicidade ou o infortúnio dos menos favorecidos. O desenho, não obstante, é uma forma de conhecimento. Cabe, portanto, procurar e lutar pelo significado da proposta inicial. E o símbolo da democracia brasileira, configurado na Praça dos Três Poderes, foi mesmo maculado por vinte pesados anos, silenciando a voz e a liberdade da população brasileira. Os ideais do modernismo brasileiro começavam a bater em retirada. O princípio da transparência urbana, representado pelo pilotis e, conjugado com a propriedade municipal do solo, foi igualmente obscurecido. A fluidez do uso do espaço das superquadras, permitindo caminhar-se em linha reta, em qualquer direção, no embalo de uma cena bucólica, fruída principalmente nos fins de semana, em busca do merecido lazer. Esse abraço fraternal com o espaço urbano, de repente, foi quebrado e transformado num pesadelo cotidiano. A repressão ideológica do Regime Militar (1964-1984) cruzava esses caminhos com a mesma facilidade. Era muito mais fácil para a polícia montar suas armadilhas em busca dos perseguidos. A superquadra, o conjunto delas e a própria cidade ficavam, assim, amordaçadas. O zoneamento implacável e rígido, igualmente, facilitava o cumprimento dessas tarefas macabras. No início dos anos 50, quando Chandigarh – Capital do Estado de Punjab – começava a ser construída, e, logo depois, quando Brasília começava a ser pensada, a Carta de Atenas constituía a mais avançada doutrina urbanística. Ela era a nossa bíblia. Porém, bastou o teste político e social do Regime Militar, para que eu começasse a duvidar dela. O sobressalto cotidiano da vida urbana de Brasília nos fazia sentir saudade da mistura mágica do jeito de viver nos lugares da Cidade de São Paulo. Uma vida política quase incógnita e sem pilotis, quase segura. Em 1969, uma vez baixado o Ato Institucional n° 5, e, logo depois, o Decreto 477, instrumentos maiores da repressão, Brasília foi ameaçada de perder o status de Capital brasileira. A Capital voltaria a ser o Rio de Janeiro. Porém, Brasília fincou raízes no Planalto Central para cumprir sua missão histórica – a ocupação do território brasileiro e o caldeamento de seu processo civilizatório. Agora, decorridos 40 anos de sua fundação, as gerações de cidadãos brasilienses, mergulhadas de novo num estado democrático, são capazes de viver e pensar uma nova cidade. O espaço urbano voltou a ser diferente, como anteriormente pensado. Brasília voltou a ser. Ela já constitui um largo acervo de contribuições ao desenvolvimento de nosso país. Inescapavelmente, ela também constitui o mais sólido testemunho de uma vontade modernista.
Vivi oito anos em Brasília, sim, todos eles trilhados por angústias cotidianas de caráter político e cultural. Acho que alguma coisa de mim ficou por lá. Talvez a facilidade de domínio do horizonte de seu sítio, significando uma idéia de futuro.
Com toda essa experiência brasiliense, recentemente visitei a Índia, terra de Mahatma Gandhi e Rabindranah Tagore, as figuras mais ilustres do século e corifeus de sua independência. Lá, ao pé do Himalaya, encontrei a Chandigarh, sonhada por Le Corbusier, para celebrar a independência da Índia do jugo britânico. Uma cidade mais calma do que Brasília, hoje, com 850 mil habitantes.
Nela, as nossas superquadras de Brasília (400 x 400 metros) são chamados Setores (800 x 800 metros) auto-suficientes.
A cidade parece mais flexível, apesar da rigidez de seus regulamentos construtivos. Sua estrutura viária vive mais o ritmo da bicicleta e do riquichá, misturando-se aos automóveis, sem maiores problemas. Interessante é que a zona das residências unifamiliares, ao contrário de Brasília, seguem, religiosamente, o estilo corbusiano, sem aquela parafernália brasiliense do outro lado do Lago, como se fosse uma arquitetura de resistência ao modernismo.
Chandigarh vai muito bem, e, ao contrário de Brasília tem um centro, tem um coração, um ponto de encontro, onde a cidade fervilha, onde o pedestre é o dono do espaço, um espaço ao nível do chão.
Isto Brasília, infelizmente, não tem. Onde era para acontecer, não aconteceu, não passou de um ponto geométrico, marcando o cruzamento dos eixos monumental e residencial. O centro de Brasília pretendeu ser uma plataforma sobre a Estação Rodoviária, sem sucesso. Se Brasília correu o risco de perder o status de Capital, Chandigarh realmente perdeu, em 1966, quando o Estado de Punjab foi dividido em função de razões lingüísticas. O novo Estado, Haryana, tem sua fronteira passando no meio da cidade. Hoje existem dois Parlamentos funcionando no Palácio projetado por Le Corbusier.
A cidade é governada por uma Junta Administrativa, representando os dois Estados. Apesar de tudo Chandigarh vai bem. É o caso de Brasília.
Como se vê, a Carta de Atenas esteve sempre ameaçada, porém, materializada por cidades, hoje, preservadas como Patrimônio da Humanidade.
Arq. Miguel Pereira

Por: Diretoria Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB

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