Receba Newsletter

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Debate no IAB RS aponta violência estrutural contra mulheres na construção das cidades

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Na última quarta-feira (18), a Rede Minha Porto Alegre, em parceria com o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS), realizou o debate “Mulheres e a Cidade”, com a participação de Denize Vàsquez, Daiana Santos e Clarice Oliveira. Na pauta, a crítica de que as cidades não foram pensadas para as mulheres, a quem deveria ser reservado o espaço privado, com o espaço público sendo o território dos homens, o que produz violências e ameaças constantes a elas. E, além disso, não foram pensadas para integrar as mulheres que estão nas margens, aquelas que sequer têm o conhecimento de que possuem direitos a acessar.

Educadora social no projeto Ação Rua, que busca estabelecer uma rede de assistência a jovens e adultos em situação de rua, Daiana Santos destaca que, ao falarmos de cidades, precisamos lembrar que elas não são feitas para todos os seus habitantes. Para Daiana, as mulheres negras em situação de rua, por exemplo, são intencionalmente retiradas de políticas públicas ao ponto de sequer ssserem capazes de compreender que possuem direitos. “Eu falo de uma cidade para mulheres, mas a maioria delas mora em lugares que nem existem, são irregulares. Mulheres que, às vezes, têm três ou quatro empregos para sobreviver. A sociedade as criminaliza e as distancia, em termos de oportunidades. Como eu garanto o direito de pessoas que nem sabem que têm direitos?”

 

Clarice, Daiana e Denise debateram a relação das mulheres e a cidade em evento da Minha Porto Alegre e do IAB-RS | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Para Daiana, o primeiro processo de marginalização é em relação ao acesso a direitos. “Quando falo acesso, não falo somente a saúde, educação, habitação, eu falo a políticas públicas que garantam direitos a todos. Esses todos não nos contemplam. Porque o todo muitas vezes não considera que, mesmo diante de uma vulnerabilidade, essa vulnerabilidade precisa ser pensada com recortes. E esse recorte, quando a gente fala de mulheres negras, traz, para além de um pertencimento a uma cidade que não existe, coisas que são especificidades. Quando a gente fala dos dados, do Mapa da Violência, da evasão escolar, os negros são a maioria. Mas trago um dado que começa a contemplar e a contextualizar o que é ser mulher negra numa sociedade. Falo da gravidez na adolescência. Mulheres negras são o maior número de mulheres grávidas na adolescência, e tem toda uma estrutura que já vai sendo retirada delas. Essa estrutura fala sim do acesso à educação, que essa educação vai trazer informação, que essa informação, sendo anulada, faz com que ela, na vida adulta, tenha uma série de outras complicações relacionadas ao pertencimento a uma cidade. Uma cidade que já exclui pela margem”, diz.

Diante dessa lógica de exclusão, não seria possível pensar uma cidade da mesma forma para todos os seus habitantes, uma vez que as reclamações de alguns sequer passariam pela cabeça de quem está em outra posição. “Aqui a gente falava, eu enquanto mulher negra, com duas mulheres brancas, que falam de acesso, de ciclovia, de parque, de cultura. Tudo isso não tem na periferia. Pensar nessa relação de uma cidade para todas, é pensar na especificidade do que é ser negro e o que é ser mulher negra”, diz.

Para começar a construir essa cidade que seja de fato para todos, ela defende que não basta realizar discussões e produzir informação nas regiões centrais, mas levar isso para a periferia. “A gente precisa descentralizar a informação. Esse espaço mesmo, um espaço que foi extremamente potente, mas essa informação vai chegar lá? E, se chegar, de que forma ela chega? Porque a mídia não consegue chegar. O que é vendido é o que já vem pronto e o que vem pronto não traz a crítica. E o que não traz a crítica não vai beneficiar as pessoas que estão lá na ponta. Então, pensar numa descentralização é pensar numa unidade de base. Quando a gente fala de base, a gente fala de oportunidades iguais, porque aqui, nesse país, a gente vive um período em que as pessoas são criminalizadas, são apontadas, elas são marginalizadas, mas, principalmente, elas são culpadas pelo não fazer, pelo não ter, porque a meritocracia diz que, se ele não tem, é porque ele não quis. E a gente sabe que não é isso”.

A administradora Denize Vásquez abordou a questão da mobilidade urbana a partir de uma perspectiva feminista, apontando que vê a cidade como um espaço de “constante ameaça para a mulher”. Ela reconhece que falar de um feminismo de ciclista já significa partir de uma posição de privilégio. O privilégio de quem mora e trabalha em uma área central da cidade e que pode ter na bicicleta um meio de transporte. Ela destaca que o Mobicidade, coletivo do qual faz parte, tenta fazer essa discussão, que produz pautas como a defesa de um transporte intermodal, que interligue ônibus, bicicleta e outros meios de transporte. “Mas ser mulher na cidade também não é fácil”, diz. “A maioria das mulheres não enxerga a bicicleta como meio de transporte”.
 


Falando de uma perspectiva do urbanismo, a arquiteta Clarice Oliveira ponderou que a cidade, originalmente, era tida como a base onde ocorria a produção econômica. Com o passar do tempo, o desenvolvimento da indústria e das tecnologias desvinculando a produção do solo, as cidades passaram a ser mercadorias, matérias-primas a serem comercializadas. Ela avalia que, nesse cenário, são reproduzidas as relações sociais de produção, relação entre os meios de produção e do trabalho. “A cidade é uma mercadoria que exclui a mulher, o preto e o pobre”, diz. “Mas não se pode pensar apenas nas relações de classe, também numa perspectiva de gênero e raça”.

Para Clarice, pensar na divisão sexual do trabalho é o que permite compreender que, na origem das cidades, à mulher foi destinado o espaço privado, enquanto o espaço público foi destinado ao homem. “A mulher deveria ficar cuidando da casa, do marido e da família para que o homem possa exercer a sua capacidade produtiva”, diz. “Mas as mulheres estão nessa condição por construção histórica, não pela sua biologia. Fomos colocadas nesse lugar, não precisamos permanecer lá”.

Como resultado dessa construção histórica, a mulher acabou tendo a sua liberdade de ir e vir suprimida. É o que, para ela, permite que a mulher, ao estar na rua, possa ser assediada, possa ser violentada apenas por estar desacompanhada.

Clarice destaca ainda que, mesmo algumas evoluções que possam ter sido verificadas nessa questão, não necessariamente são vitórias do feminismo. Como exemplo, o fato de que muitas das medidas consideradas liberais em relação às mulheres são resultado da necessidade de que as mulheres também sejam empregadas como forças produtivas, não de uma superação da cultura machista.

A arquiteta diz que percebeu isso mais claramente, esse machismo estrutural, quando engravidou. “Quando a mulher engravida, de novo ela é colocada no espaço privado, porque a paternidade não é exercida da mesma forma que a maternidade. Exceto em alguns países, a gente não tem o mesmo tempo de licença para pais e mães”, destaca.

Por: Diretoria Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB

Outras Notícias

IAB RS elege nova direção para o triênio 2023/2025

O Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento do Rio Grande do Sul (IAB RS) elegeu no último sábado (26/11) a nova direção da entidade para o triênio 2023-2025. Foi eleita a chapa única denominada “IAB Cidade, Cultura e Sociedade”, encabeçada pela nova presidente do IAB RS,  Clarice Mizocsky de Oliveira. A arquiteta e urbanista divide a presidência com mais três lideranças femininas que integram a gestão compartilhada: Paula Silva Motta dos Santos, Nathalia Pereira Danezzi e Bruna Bergamaschi Tavares.

Leia Mais →

Eleição virtual no IAB RS será neste sábado (26/11)

A Assembleia Geral Ordinária de Eleições para o triênio 2023/2025, que vai definir a nova diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento do Rio Grande do Sul (IAB RS), ocorrerá de forma virtual, no sábado dia 26 de novembro, das 9h às 21h. Vale lembrar que apenas associados arquitetos e urbanistas, em dia com a entidade, poderão participar do processo eleitoral. Também informamos que os núcleos do IAB RS no interior do Estado terão acesso somente a sua plataforma local.

Leia Mais →

Aos 96 anos, o arquiteto Emil Bered lança seu primeiro livro

Autor de várias edificações icônicas da paisagem urbana de Porto Alegre e do interior do Rio Grande do Sul, o arquiteto ex-presidente do IAB RS Emil Bered, de 96 anos, lança seu primeiro livro que apresenta a trajetória profissional e acadêmica, além de oferecer relatos, imagens e emoções de sua vida pessoal, associados a depoimentos de familiares e colegas de profissão. Será na quarta-feira (23/11), às 18h30min, no saguão da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS.

Leia Mais →

Outras Notícias

Skate, estruturas e ATHIS são destaque no segundo dia da Trienal

O segundo dia da Trienal de Arquitetura e Urbanismo deu início às atividades no Multipalco do Theatro São Pedro. Na rua, os termômetros marcavam 30º, mas a sede do público era apenas por conhecimento. Os temas principais da quinta-feira rodearam os universos do ensino, das estruturas arquitetônicas, da inovação, e claro, da Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS).

Leia Mais →

Solar do IAB RS recebe programação da Trienal de Arquitetura e Urbanismo

Porto Alegre acordou ensolarada para a abertura da Trienal de Arquitetura e Urbanismo, uma realização do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/RS). Entre os dias 16 e 19 de novembro, a capital gaúcha sediará um grande evento – gratuito – não apenas para profissionais e estudantes de Arquitetura e Urbanismo, mas para todos os que amam e vivem a cidade, a cultura e a arte.

Leia Mais →