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Ideias e polêmicas sobre o Cais Mauá

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Um evento repleto de sugestões e propostas sobre a polêmica que está causando o projeto do Cais Mauá. Assim ocorreu o debate realizado na noite da última quarta-feira (06/08) no Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS), em Porto Alegre.
O encontro foi iniciativa do grupo UniverCidade e contou com mediação da jornalista Katia Sumam; e dos debatedores Suzana Pohia, do grupo Defesa da Alegria; e a advogada Jacqueline Custódio, do grupo Chega de Demolir Porto Alegre. O grupo UniverCidade define-se como um espaço de diálogo e coletivo de criação e produção de conhecimento sobre a cidade. 
Para Tiago Holzmann da Silva, presidente do IAB-RS, neste tema é preciso diferenciar a discussão ideológica sobre o modelo de cidade de outra sobre as formas de procedimento administrativo. “O que está sendo proposto no Porto é legítimo, apesar de discordarmos do modelo de cidade que coloca esta a serviço de interesses econômicos”, opinou. Para ele, a grande maioria da sociedade está contrária a este modelo privatizante dos espaços públicos. “Temos que ter estratégias para enfrentar esta lógica. Todos nós, em conjunto, precisamos construir um projeto de cidade que seja compartilhado por todos". A outra questão que foi apontada é a de procedimento. "Quais são os procedimentos que os órgãos públicos estão utilizando para implantar obras em nossa cidade?”, questionou o presidente. Silva informou que o IAB-RS defende a adoção do concurso público de arquitetura e da ampla discussão dos projetos pela sociedade. Para ele, hoje os projetos importantes para a cidade são tratados como se fossem secretos,e priorizam a solução da viabilidade econômica financeira em detrimento da urbanidade e do caráter público dos espaços da cidade. “Nenhum dos projetos recentes para Porto Alegre são de arquitetura, urbanismo e de construção da cidade, todos são estratégias de viabilização de negócios financeiros”, criticou Silva. “Precisamos ter estratégias imediatas para barrar esta postura do governo e o IAB-RS tem muito prazer de receber esse debate e ajudar a avanço das futuras ações”, destacou.
A advogada Jacqueline Custódio, do grupo Chega de Demolir Porto Alegre, disse que uma das preocupações de seu grupo é a construção de um coletivo forte para defender a cidade como um todo. “Até o momento o que vemos são ações de reação”, observou.  Ela informou que para combater o projeto do Cais, o grupo está apoiado no meio judicial. “Tem um processo no Ministério Público que está questionando a licitação. A partir dele teremos uma base melhor do que se pode fazer”, informou.  A advogada acredita que tem muita gente em Porto Alegre que quer um outro tipo de cidade. “Fizemos uma discussão do que é progresso, questionamos e buscamos parceiros”, destacou.
Suzana Pohia, do grupo Defesa Pública da Alegria, provocou dizendo é que preciso que todos os participantes do debate organizem um movimento coletivo. “É um absurdo! Hoje para vermos o pôr-do-sol naquela área é preciso pagar para embarcar no Catamarã”, criticou.
Vanessa Maciel, também do grupo Defesa Pública da Alegria, complementou dizendo que muitos se quer conhecem o Cais. “Tem muita gente que só agora cruzou o muro. E como é que as pessoas vão opinar se não conhecem?”, questionou. “Não queremos só negar esse projeto que está sendo imposto, mas queremos buscar ideias, um projeto alternativo, mas falta o conhecimento e a parceria de técnicos”, afirmou. “Esse projeto aparentemente é lindo, com água jorrando em vidros. Então as pessoas não entendem por que queremos barrar algo tão bonito”, disse Vanessa Maciel. Para ela, tem que ter uma articulação entre as entidades, reuniões e ações que saiam do papel.
A moradora do Centro Histórico, Mara Gazola, acha que a discussão que está ocorrendo hoje é de uma cidade hostil. “A cidade que temos está criando banco de praças com pequenas divisórias para que pessoas não deitem. Se criam muros, cercas e se instala o terror”, disse Gazola. “Estamos voltando no tempo, mas podemos fazer ações muito positivas”, opinou.  Como exemplo disso, Mazola citou a praça Brigadeiro Sampaio. “Os moradores se reúnem para tomar mate, criamos projetos culturais e com essa forma de ocupação conseguimos tirar os marginais e os consumidores de drogas do local”, informou.  Ela acredita que é construindo um espaço coletivo e fazendo intervenções e ações comunitárias que se pode conseguir melhorias para a cidade. “Precisamos criar coisas que mecham com o imaginário das pessoas, construindo uma sociedade que tem espaço para refletir e exigir o que é direito dela”, concluiu a moradora do Centro Histórico.
Neidmar Roger Alves, Presidente do Conselho Estadual de Cultura, abordou a questão de que a cidade está pobre de espaços culturais. “Do ponto de vista arquitetônico, temos o Cine Capitólio penando há anos. O Teatro de Câmara não existe mais, e por aí vai”, criticou Alves. “É fundamental que as manifestações aconteçam com muita força”, apoiou ele.
Nesta mesma linha de apoio a força nas manifestações, Anderson Giroto, do Defesa Pública da Alegria e do MST, lembrou que o caso do Cais Mauá também é uma disputa de território. Para ele, não é dentro do judiciário que vamos resolver a situação que está blindada, assim como boa parte do Estado. “Aprendemos que para conquistar territórios é preciso gerar conflito". Para Giroto, se não criarmos conflitos é pouco provável que estas discussões gerem frutos. “Vamos fazer esses territórios os espaços que queremos”, discursou.
Leonardo Márquez, do Translab, questionou quais são as habilidades envolvidas. “Temos o intelecto de diversos profissionais e contamos com gente que tem experiência. Por que então perdemos tanto tempo para defender o Cais?”, provocou. “Precisamos dessa visão científica, de uma assessoria jurídica para viabilizar as ações, para temos assim uma coletividade organizada de ótimo nível profissional”, sugeriu Márquez.
Para Samuel Quintana, ex-dirigente do IAB-RS, existem direitos que não estão sendo reservados, desde a época do Governo Brito. “Entra governo e sai governo e os projetos são os mesmos e sem participação popular. Se não tem espaço para participação hoje, estamos utilizando métodos dos anos 80”, criticou.
Para Fernando Souza, morador do bairro Ipanema e do Movimento em Defesa da Orla, esse processo está se arrastando há muito tempo. “É certo que existe um problema econômico neste consórcio, e sério, por isso temos que descobrir e criar uma ação jurídica”, sugeriu. Para ele, a maior revitalização do Cais do Porto seria transformá-lo em porto. “Temos uma hidrovia, e ao contrário do que dizem na mídia, a cidade não está de costas para o rio. O Cais do Porto para ser revitalizado tem que ser transformado em Porto para transportar pessoas e mercadorias”, acrescentou.
O arquiteto Clovis Ilgenfritz, entrou na discussão dizendo que não podemos ficar lamentando o projeto. “Vejo que existe um projeto que não está sendo feito e está contrariando a proposta inicial, o compromisso com o poder público e com a população”.  Ilgenfritz acredita que não há outra saída a não ser pelo motivo judicial, para lutar e implantar uma proposta de interesse público. “Na verdade o interesse público está sendo controlado e teleguiado por um setor que domina a mídia, sem falar nos investidores que tomaram conta da cidade”, criticou. Para ele, Porto Alegre já foi melhor e mesmo assim era ruim. “Agora tá insustentável”, lamentou. “Tem que fazer uma luta direta e legal e uma luta de mobilização e um trabalho de mídia”, opinou o arquiteto.
No encerramento do debate, a jornalista Katia Sumam, deixou o convite a todos os participantes para um próximo encontro, com a proposta de criar uma ação pública nas ruas. “Se esse encontro servir para juntar as pontas e nos fortalecer já valeu a pena”, concluiu Sumam.

Por: Diretoria Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB

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