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A importância da forma curva nas arquiteturas de Niemeyer e Gaudí

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“O inesperado, o irregular, o surpreendente
são partes essenciais e características da beleza.”
Arq. Oscar Niemeyer citando Charles Baudelaire
(no discurso de aceitação do The Pritzker Prize, 1988) Antoni Gaudí e Oscar Niemeyer são dois arquitetos contemporâneos de seus tempos, com obras marcantes que não podem ser rotuladas ou enquadradas nos limites estreitos das ‘escolas’ arquitetônicas. Mesmo se concordarmos que Gaudí foi quem mais contribuiu para difundir o modernismo catalão, assim como Niemeyer deu dimensão internacional ao racionalismo que caracteriza o Movimento Moderno na arquitetura brasileira, seria demasiadamente reducionista considerar que suas obras se restringem às manifestações dessas escolas. Já na década de 60 Roberto Pane(1) afirmava que “deve-se reconhecer que Gaudí não tem lugar no Art Nouveau nem no Expressionismo, apesar de algumas superficiais analogias que referem sempre a um artista com a linguagem do seu tempo”, tornando inválidas as intenções classificatórias menos sensíveis como a de Oriol Bohigas(2) e Carlos Flores(3), que o definem genericamente como Modernista. Do mesmo modo, diversas publicações sobre ‘Brazilian Architecture’, numa visão simplificadora da obra de Niemeyer o definem como Racionalista, contrastando com sua própria afirmação: “tudo isso eu sentia ao projetar a obra da Pampulha, a primeira efetiva contestação à arquitetura racionalista. Sentia que uma nova arquitetura se impunha, uma arquitetura diferente, mais leve, cheia de graça e criatividade”(4). Esse entendimento, de maior abrangência e amplitude, parte de uma percepção da arquitetura como fato cultural. Um testemunho que reflete a produção de uma comunidade, respeitando a genialidade, mas permitindo a análise da obra arquitetônica como algo que transcende à obra de autor (no sentido consagrado na Idade Média de ‘autor iluminado’), r rebatendo o trabalho para o contexto da sociedade na qual foi produzido. Nesse sentido é esclarecedora a referência de Ramón Gutierrez(5) à Arquitetura, como “uma fonte inesgotável de associações e expressões, que evidenciam as formas de pensamento e as atitudes culturais da comunidade”. Valoriza os aspectos simbólicos, ou seja, os signos que constituem o objeto de estudo da Semiótica e permitem interpretar (entendidos como linguagem) os possíveis significados da obra arquitetônica analisada. Com auxílio desse instrumental se procederá a uma ‘leitura’, em contraponto, das obras de Gaudí e Niemeyer, levando-se em conta a época em que foram produzidas, as técnicas utilizadas e os materiais disponíveis. Coincidências Os trabalhos desses dois arquitetos apresentam, mesmo para o observador menos atento, semelhanças conjunturais e diversas coincidências dignas de citação. O mais significativo, apesar de menos evidente, diz respeito ao desenvolvimento que ocorreu na região de Barcelona em virtude do processo de industrialização e conseqüente enriquecimento, que se consolidou na segunda metade do Século XIX, trazendo em seu bojo a elevação de Barcelona à condição de um importante pólo cultural da Europa. A cidade promoveu a reforma urbana comandada por Cerda, cujos resultados são significativos até os dias atuais, visíveis na quantidade de edifícios que ostentam riqueza e ousadia de conceitos, marcando presença em suas ruas com nomes de arquitetos, pintores, músicos, filósofos, etc. refletindo também uma significativa produção cultural. É nesse ambiente fértil que floresceram as obras de Gaudí e seus contemporâneos, como Muntaner e Puig Cadafalch e outros. No Brasil a industrialização ocorreu bem mais tardiamente e sua consolidação só foi acontecer a partir dos anos 30, alcançando a plenitude após a II Guerra. Ao mesmo tempo o país se fixava como um dos pólos culturais da América Latina, nos campos das artes plásticas, música literatura e (principalmente) arquitetura, gerando condições similares às da Catalunha dos tempos de Gaudí. Essa área foi uma das que mais evoluiu, conquistando espaço internacionalmente, tendo como carros chefe, justamente, as obras de Oscar Niemeyer (num de seus melhores momentos) e Lúcio Costa. Outro fato marcante foi o apoio de dois homens voltados ao mecenato, como o nobre Don Eusebi Güell, que com seu apoio decisivo deu visibilidade ao trabalho de Gaudí, e o político Juscelino Kubitschek que, desde os tempos do governo de Minas, criou condições para que Niemeyer realizasse as obras que marcaram a arquitetura brasileira. É evidente que esses fatos representaram um aspecto circunstancial, mas criaram as condições para as primeiras manifestações do talento e genialidade desses arquitetos, depois reconhecidos e prestigiados internacionalmente. Esses mecenas tiveram enorme importância e alguns pontos em comum, como a sensibilidade, a abertura para aceitar soluções inovadoras e a antecipação do futuro. Além disso, a percepção de que desse modo poderiam inscrever seus nomes na história, de forma indissoluvelmente associada às obras que souberam promover. Muito parecido é o fato de que os palácios construídos pelos dois arquitetos foram, inicialmente, ocupados como residências de seus respectivos apoiadores. Conde Güell ocupou, a partir de 1888 o palácio que levou seu nome que, de acordo com o Prof. Joan Bassegoda i Nonell(6), dirigente máximo da Cátedra Gaudí, vinculada à Escola de Arquitetura da Universidade Politécnica da Catalunha, “significa a consagração de Gaudí, já que mesmo sendo o arquiteto da igreja da Sagrada Família (…) nessa residência vai poder desenvolver em muito pouco tempo, suas idéias construtivas e decorativas”. Juscelino, por sua vez, como Presidente da República, foi o primeiro ocupante do Palácio da Alvorada, um dos símbolos maiores de Brasília, contribuindo para a definitiva consagração de Niemeyer. Semelhanças ainda persistem, no caso dos parques que ambos projetaram (Parque Güell, em Barcelona, e o Parque da Pampulha, em Belo Horizonte), que apesar de destinações diferentes, apresentam características inovadoras de grande impacto. O mesmo ocorre com as igrejas que os dois construíram, que até hoje ainda causam comoção não somente nos fiéis, mas também nos críticos de arquitetura. Em Chaupigneulle e Arche(7), a afirmação de que “O templo da Sagrada Família, edificado por Gaudí em Barcelona, é uma obra alucinada, de um barroquismo estranho e vigoroso”, que remete à polêmica provocada pela Igreja de São Francisco, na Pampulha, cuja consagração foi retardada pelas autoridades religiosas, gerando observações como “A forma da igreja construída por Niemeyer e seu engenheiro, Cardozo, não é tão brincalhona como parece à primeira vista”. O que ninguém contesta, no entanto, é o rigor do projeto, sobretudo no aspecto estrutural, e a integração das obras de arte, que deixam de aparecer como meros elementos decorativos, mas fazem parte do conjunto arquitetônico.
As coincidências não param por aí, mas seria ocioso prosseguir enumerando uma longa lista de citações. A análise das semelhanças conceituais é mais eficiente, permitindo o estabelecimento de um contraponto entre as obras desses dois arquitetos.
Formas Curvas
Quando Niemeyer declarou que “toda forma capaz de criar beleza tem na própria beleza a sua função principal”, conseguiu estabelecer uma referência para o sentido quase ‘escultórico’ de sua obra, fato de certa maneira também identificável na obra de Gaudí. De fato, ambos rejeitam a dureza das linhas retas e a rigidez das formas ortogonais, mesmo que os motivos sejam explicados de forma bastante diversa. Gaudí, um homem de arraigadas convicções religiosas e voltado ao misticismo, atribui às formas curvas da natureza um sentido de divindade, repetindo diversas vezes, como nos refere Puig i Boada(8), que a originalidade de sua obra consistia em voltar às origens, que para ele era a Natureza como criação divina. Já Oscar sempre assumiu uma postura racional, com uma visão dialética do mundo material, onde justifica o aproveitamento das “formas novas, as curvas livres e sensuais que o concreto sugere…” (9)
Assim, analisar obras tão diferentes e distantes no tempo, separadas por realidades distintas como a Catalunha do final do século XIX e o Brasil atual, com maneiras de pensar e compreender o mundo completamente diferentes, permite identificar tantos pontos em comum, principalmente na forma ambígua e atrevida de estabelecer um intenso diálogo entre o código formal e as soluções estruturais. Na aparência lúdica, que muitas vezes se aproxima do onírico, está sempre gravada a rígida coerência estrutural. Se de um lado Gaudí fazia construir modelos ‘polifuniculares’ para estudar as soluções estruturais, de outro Niemeyer tinha em Joaquim Cardozo, responsável pelo cálculo estrutural da quase totalidade de suas obras, o suporte necessário para que o partido estrutural fosse rigorosamente respeitado, inclusive por meio de verdadeiros poemas formais, como as ferragens das colunas do Palácio da Alvorada.
Obras de antecipação
Ambos podem ser considerados arquitetos sintonizados com seu tempo, mas capazes de se colocar à frente de seus contemporâneos pelo arrojo das soluções e a ousadia em inovar no uso das técnicas e dos materiais conhecidos. A coragem de dar asas à imaginação para concretizar o sonho. Le Corbusier percebe essa força, fazendo a seguinte referência ao arquiteto catalão, em 1928: “A obra de um homem de uma força, uma fé, uma capacidade técnica extraordinárias, manifestada durante toda uma vida (…)”.
Eles domaram a pedra, que se adaptou às formas que determinaram, seja a natural extraída sob orientação de Gaudí das reservas de Garraf, na vizinhança de Barcelona, ou a artificial, concreto/pedra moldada para os trabalhos de Niemeyer. A sucessão de elementos estruturais que sustentam a cobertura dos Palácios do Planalto e da Justiça, em contraponto com os arcos de apoio das abóbadas da Finca Güell (onde hoje funciona a Cátedra Gaudí), ou do teto da Casa Milà, mais conhecida como ‘La Pedrera’; a seqüência de abóbadas da Igreja da Pampulha e as da escola elementar junto ao Templo da Sagrada Família (que tanto impressionaram Le Corbusier); as curvas harmoniosas dos terraços e marquise da Casa do Baile, na Pampulha, e as dos bancos da praça superior do Parque Güell, dão a dimensão das semelhanças no uso das linhas curvas nos trabalhos de ambos.
A conquista de grandes vãos com o uso do concreto tem permitido maior liberdade projetual aos arquitetos atuais, com o uso de painéis de fechamento localizados de acordo com as necessidades dos moradores, as chamadas plantas livres. Em Gaudí isso pode ser observado há quase um século, em ‘La Pedrera’, um edifício praticamente ‘esculpido’ em pedra, mas que já tira proveito da organização livre da planta dos diversos apartamentos, de acordo com os interesses de seus proprietários. Mais que isso, projetado antes mesmo que os automóveis fossem fabricados ’em série’, o que só ocorreu a partir de 1907 com o Ford T, dispõe de garagem subterrânea e acesso em rampa, com uma vaga por apartamento.
Não se imagine, porém, que inovação e criatividade podiam fazer com que Gaudí se afastasse dos valores e tradições da cultura catalã. Se a obra de Oscar Niemeyer está impregnada pelos valores do barroco mineiro, na produção gaudiniana a identidade cultural ibérica está retratada, tendo o Mediterrâneo como local de confluência de culturas muito diversas e, sobretudo Barcelona, como centro de referência nos últimos séculos. O uso de azulejos e gelosias (muxarabis), as varandas e muitos outros elementos presentes nas obras do período da ocupação árabe(10),mesmo se essa influência é bem mais sensível na Andaluzia que na Catalunha.
Os dois têm produções arquitetônicas que podem ser consideradas ponto de encontro da cultura de seus respectivos povos. Mais ainda, baluartes de resistência contra a tendência de internacionalização, tanto pelo ‘Modernismo’ da época de Gaudí, quanto pelo ‘Racionalismo'(11) que, de acordo com Oscar, contradiz o espírito do concreto armado. Duas vidas inteiramente dedicadas à profissão que escolheram, mesmo com intenções tão distintas, já que um era místico, conservador e o outro é materialista, revolucionário, mas ambos autores de obras monumentais que marcaram sua época, conquistando o respeito internacional e projetando seus valores culturais.
Mas há momentos de manifestação de grande força também na pequena escala, como na simplicidade da escola elementar da Sagrada Família, de 1909, cuja cobertura de abóbadas foi totalmente resolvida com aplicação do arco hiperbólico, contrastando com as torres colossais do templo que se elevam ao seu lado. Do mesmo modo a singeleza da capela do Palácio da Alvorada, se contrapõe à monumentalidade intencional do corpo do edifício. A intenção subjacente, no entanto, é a de expressar beleza e emoção através do rigor técnico.
Uma frase forjada por Lara Masini(12), como definição da obra do arquiteto catalão, mas que pode perfeitamente ser estendida a Niemeyer sintetizando a obra de ambos: “A lição ativa e vital de Gaudí reside, certamente, na inextinguível e ansiosa busca da expressividade”.
NOTAS
(1) PANE, Roberto – Antoni Gaudí. Milão, Itália, Edizioni di Comunita, 1964.
(2) BOHIGAS, Oriol – Arquitectura Modernista. Bracelona, Espanha, Editorial Lumen, 1968.
(3) FLORES Carlos – Gaudí, Jujol y el Modernismo en Cataluña. Madrid, Espanha, Aguilar, 1983.
(4) NIEMEYER, Oscar – L’Architettura Moderna del Brasile (in) L’Arte del Brasile. Milão, Itália, Ed. Arnoldo Mondadori, 1984.
(5) GUTIERREZ, Ramón – Preservação do patrimônio arquitetônico como agente dinamizador da consciência cultural americana. Rio de Janeiro, Brasil, SPHAN/ Pró-Memória, 1983.
(6) BASSEGODA I NONELL, Juan – Gaudí, Arquitectura del futur. Barcelona, Espanha, Salvat Editores, 1984.
(7) CHAUPIGNEULLE, Bernard e ARCHE, Jean – L’Arquitectura Del Siglo XX. Barcelona, Espanha, Ediciones Destino, 1976.
(8) PUIG I BOADA, Isidre – El Pensament de Gaudí. Barcelona, Espanha, Col-legi d’Arquitectes de Catalunya, 1981.
(9) NIEMEYER, Oscar – Op. Cit. (1984).
(10) A maior parte da área da Península Ibérica foi, durante quase oito séculos, ocupada por povos árabes (mouros), que trouxeram seus costumes e tradições, marcando de forma indelével a cultura local. Somente à época do ‘descobrimento’ da América é que o território europeu foi ‘reconquistado’ pelos reis católicos de Castela e anexado, pelo poder das armas, à sua coroa. As regiões mais ao Norte, próximas aos Pirineus, como Catalunha, Navarra e País Basco, foram menos afetadas por estas invasões, podendo manter mais integras suas culturas originais.
(11) Niemeyer considera a arquitetura Racionalista internacional “feita de blocos de vidro a descer fria e ostensiva sobre as calçadas”, como um equívoco do qual participou inclusive a Bauhaus, ao propor o estudo de um tipo de edificação para cada uso. E completa com uma frase que ouviu de Lê Corbusier: “a Bauhaus é o paraíso da mediocridade”.
(12) MASINI, Lara – Antoni Gaudí. Barcelona, Espanha, Ediciones Nauta, 1970.
Ari Antonio da Rocha, PhD
Ari Antonio da Rocha é Arquiteto/Designer (FAU-USP 1964) e Pesquisador CNPq; Doutor em Arquitetura/Desenho Industrial (FAUUSP 1973); Pós-Doutorados (Cátedra Gaudí/UPC – Barcelona 1987 e NUTAU/USP 2000); Representante da Cátedra Gaudí/UPC para o Brasil; assessor técnico da presidência da ABENGE; membro titular da Academia de Ciências – RN; membro efetivo do Conselho Superior do Instituto de Arquitetos do Brasil-IAB e representante eleito do Brasil no Comitê UNESCO-UIA de Ensino de Arquitetura

Por: Diretoria Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB

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