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ARQUITETURA: O IMORTAL OSCAR NIEMEYER

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Ao visualizar a longa e profícua trajetória de quase oitenta anos de produção arquitetônica de Oscar Niemeyer, vamos encontrar um conjunto de obras que já o imortalizaram, especialmente aquelas concebidas entre 1936 a 1962, isto é, do Edifício-sede do então Ministério da Educação e Saúde Pública (atual Palácio Capanema, 1937-1943), na Esplanada do Castelo, no centro da cidade do Rio de Janeiro ao Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores (1962), na Esplanada dos Ministérios em Brasília.
Neste período, Niemeyer realizou obras que o colocaram ao nível dos maiores nomes da arquitetura mundial. Lauro Cavalcanti, diretor do Paço Imperial do Rio de Janeiro e professor da Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, com absoluta propriedade disse, recentemente, em entrevista a revista aU, que “Niemeyer foi o primeiro e único artista visual brasileiro a contribuir, de modo efetivo, para delinear a linguagem internacional de seu campo profissional”. De fato, o arquiteto carioca desempenhou um papel significativo na trajetória da arquitetura moderna do século XX.
Para começar, teve participação decisiva na condução da solução final do projeto para o Edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde Pública, como depôs Eduardo Vasconcellos (professor da Faculdade de Arquitetura da UFRJ), filho de Ernâni Vasconcellos, um dos arquitetos que compôs a equipe liderada por Lucio Costa, e que teve a consultoria de Le Corbusier. Cavalcanti salienta a importância da obra “por ser o primeiro arranha-céu com fachada de vidro no mundo”. Em depoimento dado em 1992, Lucio Costa lembrou que foi ao longo do desenvolvimento do projeto deste edifício que Niemeyer começou a demonstrar com maior evidência as suas aptidões.
No final da década de 1930, teve nova oportunidade de unir seu talento ao de Lucio Costa, cujo prestígio já havia se consolidado,  ao realizarem o surpreendente Pavilhão do Brasil na Feira de Nova Iorque (1938-1939). Neste projeto, a capacidade intelectual dos dois arquitetos, surpreenderam os norteamericanos. A obra inaugura a adoção das formas curvas que marcariam a carreira de Niemeyer. A repercussão do pavilhão resultou em uma exposição Brazil Builds no Museum of Modern Art (MoMa), de Nova Iorque, acompanhada de um livro-catálogo, elaborado pelo arquiteto Philip L. Goodwin, com fotografias de G. F. Kidder Smith. Decolavam definitivamente as trajetórias dos dois arquitetos, especialmente a de Niemeyer, e com eles,  também o grupo de arquitetos que compuseram a chamada “Escola Carioca”, dos quais merecem especial referência Affonso Eduardo Reidy, Jorge Machado Moreira e os chamados MMM Roberto (Milton, Marcelo e Maurício).
Ao voltar ao Brasil, concebeu o Grande Hotel de Ouro Preto (1940), um desafio inédito no contexto nacional, projetar uma nova edificação a ser inserida em cenário urbanístico consolidado desde o século XVIII. Se ali não veio uma resposta com absoluta precisão, conseguiria logo depois ao construir junto da Igreja de Nossa Senhora da Candelária, na Praça Pio X, no centro do Rio de Janeiro, o edifício-sede do Banco Boa Vista (1946).
Na Pampulha, em Belo Horizonte, é que se afirma definitivamente, apoiado pelo jovem prefeito, Jucelino Kubitschek de Oliveira, ao realizar uma espécie de “antropofagia” do modernismo, como também afirmou Cavalcanti. Dos projetos desenvolvidos na Pampulha, dois merecem menção especial, o então Cassino (1940-1942), hoje Museu de Arte Moderna, e a Igreja de São Francisco de Assis (1940).
Na década de 1950, o Edifício Copan (1951), o conjunto de edificações do Parque do Ibirapuera (1951-1955), todos em São Paulo, e a Residência das Canoas (1953), na Estrada das Canoas, no Rio de Janeiro, concebida para si, são as obras mais importantes.
Em Brasília sua carreira chega ao ápice. Nela, sua arquitetura – concebida no período entre 1957 e 1965 – conseguiu alavancar o paradigma da maneira de pensar o urbanismo moderno, expressado pela concepção de   Lucio Costa. Se nas últimas décadas não realizou obras do mesmo quilate das primeiras, na capital federal, ao menos conseguiu expressar as transformações ocorridas na sociedade brasileira. Os Palácios da Alvorada (1957) e do Planalto (1958), o Palácio do Supremo Tribunal Federal (1958), o Congresso Nacional (1958), o Palácio do Itamaraty (1962), e a Catedral (1959), são suas obras de maior magnitude na cidade.
No perído pós-Brasília, isto é, de meados dos anos 1950 aos dias de hoje, Niemeyer continuou a projetar uma quantidade impressionante de obras, entretanto, o vigor do período anterior e a capacidade de inovação não foi mais o mesmo. Merecem destaque, neste período, a sede do Partido Comunista Francês (1965), em Paris (França), o Edifício-sede da Editora Mondadori (1968), em Milão (Itália) e o conjunto de edificações para a Universidade de Constantine (1969), em Argel (Argélia).
Lamentavelmente, no Rio Grande do Sul, Niemeyer realizou muitos projetos mas viu edificados apenas a chamada Casa do Povo (1985-1988), em Vacaria, além dos Memoriais da Coluna Prestes (1996), em Santo Ângelo, e a Getúlio Vargas (2004), em São Borja. Na década de 1940, elaborou um projeto para um Edifício-sede para o Instituto de Previdência do Estado (1943), que lastimavelmente não foi construído. Certamente teria qualificado a paisagem da área central da capital gaúcha e estaria entre suas obras significativas.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) notabilizou-se por prematuramente reconhecer como patrimônio cultural de uma nação não só a produção do passado, mas também do presente. Todas as obras modernas que foram tombadas possuem a assinatura de Niemeyer. A Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha (1947); o Edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde Pública (1948); a Catedral de Brasília e a Cidade de Brasília (1990). Tal reconhecimento, é necessário que se esclareça, deu-se pelas ameaças de descaracterizações com que tais edificações ou conjuntos estiveram submetidas, mas se não fosse a excepcionalidade de cada uma, jamais teriam chegado a tão privilegiado status.
A trajetória aqui descrita o colocou em evidência no cenário internacional e o credenciou a  receber o cobiçado Prêmio Pritzker, o equivalente ao Prêmio Nobel no campo da arquitetura, na edição de 1988. Sua marca pessoal pode ser sintetizada na exploração das potencialidades do concreto como poucos, em edifícios esculturais que demonstram categoricamente a indissociabilidade entre a arquitetura e a estrutura; no privilégio da venustas associada a firmitas  em relação a utilitas (crítica maior de seus oponentes), chegando a afirmar que a razão é inimiga da imaginação; e mesmo, ignorou referências, funções e normas na busca pelo novo e pelo surpreendente, parafraseando Simone Capozzi. Aliás é a palavra surpresa a que possivelmente melhor possa resumir sua obra e sua vida.
Ainda que tenha dedicado sua vida à arquitetura, sempre colocou a vida acima de tudo. Basta ler sua biografia para ver que a desfrutou sem parcimônia sua existência centenária. Exerce a cidadania com plenitude, e sua militância comunista reforça a amargura que lhe domina e revolta ao perceber que nada mudou, referindo-se especialmente à pobreza. Nos instantes de reflexão, confessa que a arquitetura desaparece. “Gosto de ficar sozinho a pensar na vida, neste universo que nos encanta e humilha. De sentir a fragilidade das coisas e a nossa própria insignificância”, disse. Mas não desiste, pois acredita que a vida será um dia mais justa e solidária. Como afirmou, “é preciso a noite para surgir o dia”.
Para um arquiteto que chegou aos 104 anos de idade e desenvolveu uma quantidade impressionante de projetos, jamais alcançada por outro profissional, é possível afirmar com convicção que Niemeyer é impar, e essa condição já o faz imortal.

Por: Diretoria Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB

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